Hoje terminei de ler A psicanálise dos contos de fadas, de Bruno Bettelheim. É de certa maneira uma coincidência que tenha ido ver a nova versão da Disney de Cinderela com minha irmã mais nova. Então aproveito para expressar algumas ideiazinhas que me ocorreram ao intercruzar essas referências. O livro de Bettelheim tem como objetivo principal explorar os benefícios inconscientes que a narração de contos de fadas tem junto a crianças sobretudo com idade entre 6 e 10 anos. Para tanto, ele chega a buscar a genealogia de contos de fadas clássicos, alguns muito populares ainda hoje, para, através da comparação entre as várias versões da história, enumerar as sugestões simbólicas do conto em relação à aquisição de maturidade sexual e autonomia por parte da criança.
Quem está familiarizado com temas psicanalíticos é capaz de imaginar que Bettelheim lê as histórias de Chapeuzinho Vermelho, João e o Pé de Feijão, Bela Adormecida, dentre outros, focando temáticas como o complexo de Édipo, os sentimentos ambivalentes da criança em relação a seus genitores, seu medo em relação à necessidade de se tornar independente e a ser abandonada pelos pais, seu medo de não conseguir sobrepujar os irmãos e sempre ser vista como inferior etc. Vivem me apontando que este ou aquele psicanalista que sai na mídia é meio picareta, e confesso que tenho muita dificuldade de avaliar isso, não só pela minha relativa imaturidade e desconhecimento em relação ao assunto, mas também tendo em vista que a psicanálise, já em seus primórdios, isto é, nos escritos de seu pai, Sigmund Freud, já era acusada de picaretagem e charlatanismo. Era vista basicamente como pseudociência. No entanto, contrasto essas observações com minha experiência como analisanda. Tenho ido à analista há cerca de seis meses, e acho que tenho tirado algum bem-estar disso. Portanto, não chego a questionar, por ora, o benefício terapêutico da psicanálise, mas me aproximo do livro de Bettelheim a partir da ótica de quem estuda literatura. A favor da seriedade de Bettelheim, há, no verso da edição que li, uma fala elogiosa de Harold Bloom, um dos críticos literários mais célebres da atualidade.
Como já disse, é perceptível que seu objetivo principal é suprir uma falta nas áreas de educação e psicanálise no tocante ao modo como os contos de fadas podem ser benéficos para crianças. Para fazê-lo, ele chega a realizar algumas apostas no campo literário. Comparações constantes em sua obra ocorrem com o mito e a fábula. O primeiro foi fartamente utilizado pelo próprio Freud para ilustrar suas teorias psicanalíticas. A ambivalência de sentimentos da relação edípica, em que a criança deseja disputar o amor do genitor do sexo oposto com o genitor do mesmo sexo, não se encontra apenas em Édipo Rei, como também em inúmeras outras tragédias gregas que tinham como base essas histórias mitológicas. O fundamental a se compreender sobre a diferença em relação aos contos de fadas é que no mito em geral não há escapatória e modo de se sair bem da relação edípica, enquanto nos contos de fadas o final feliz é capaz de inconscientemente apaziguar as angústias da criança e fazê-la perceber que há saída para as situações conflituosas que ela vive. Isso tudo ocorre, naturalmente, porque a criança é capaz de se identificar com os contos de fadas, e de perceber, sempre em um nível inconsciente, como os heróis e heroínas se vêem em situações análogas à sua própria.
O conto de fadas, com algumas poucas variações, pode tornar-se uma fábula. Na realidade, não faltam exemplos de semelhanças entre determinadas fábulas e contos de fadas. Entretanto, a lição de moral que vem a reboque da fabula, na visão de Bettelheim, empobrece a relação da criança com a história. Ao invés de usufruir os significados ocultos na mesma e relacioná-las segundo seu próprio interesse com suas experiências pessoais, a criança é conduzida a uma espécie de redução de todo o valor e significado da história à lição de moral do final. De modo geral, ( e é claro que reconheço que essa é uma explicação grosseira, baseada em apenas uma faceta desse tipo de história), tendo a concordar com essa impressão de Bettelheim, e creio que esse problema surge na maior parte das obras edificantes ou engajadas. A riqueza de significados construída pela obra é substituída como prioridade pela causa de engajamento ou lição de moral, muitas vezes privando por completo o ouvinte ou leitor de refletir sobre os significados da obra fruída. Afinal, o significado da obra é dado de maneira bastante óbvia. É entregado de bandeja e, por isso, dispensa o leitor de maiores ousadias interpretativas.
Dito isso, interessa-me discutir então o modo como os contos de fadas tratam questões de gênero. É evidente que é preciso fazer a ressalva de que a maior parte dessas histórias tiveram origens em tempos muito remotos e sociedades em que a diferença de direitos e oportunidades entre homens e mulheres era bastante acentuada. No entanto, levando-se em conta que essas histórias ainda são contadas e recontadas ainda hoje, e inclusive são realizados remakes e releituras todos os anos das mesmas na indústria de entretenimento, cabe sim nos perguntarmos o que eles ainda têm a nos oferecer no que se refere a esse tópico em particular. Bettelheim chega a tocar no assunto da diferença de gêneros nos contos de fadas e defende o fato de que muitas dessas histórias que possuem um herói como centro têm uma versão análoga com uma heroína. Para ele, não há, portanto, diferença significativa de tratamento entre os gêneros. Veja se ele convence você:
“Afirmou-se recentemente que, nos contos de fadas, a luta contra a dependência infantil e para alcançar a individualidade é com freqüência descrita diferentemente no que diz respeito à menina do que no que diz respeito ao menino, e que isso é o resultado de uma estereotipia sexual. Os contos de fadas não transmitem tais imagens unilaterais. Mesmo quando uma menina é retratada como voltando-se para dentro de si em sua luta para alcançar a individualidade e o menino como lidando agressivamente com o mundo exterior, esses dois juntos simbolizam os dois modos pelos quais se deve conquistar a individualidade: aprendendo a entender e dominar tanto o mundo interior quanto o exterior. Nesse sentido, os heróis masculinos e femininos são mais uma vez projeções em duas personagens diferentes de dois aspectos separados (artificialmente) de um único processo pelo qual todos têm de passar ao crescer. Embora alguns pais que tomam as coisas ao pé da letra não o percebam, as crianças sabem quem independentemente do sexo do herói, a história diz respeito a seus próprios problemas” (BETTELHEIM, 2007, p. 313).
As piruetas retóricas que as pessoas usam para convencer as outras e a si mesmas das coisas mais absurdas e incríveis! Bettelheim admite (como não?) que, enquanto Aladdin ou João (de o Pé de Feijão) passam por inúmeras aventuras exteriores e conseguem se safar sendo corajosos, valorosos, e de vez em quando tendo uma ajudinha de magia, não é incomum que se retrate a heroína dos contos de fadas como uma moça desfalecida ou em apuros (Bela Adormecida, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela) que precisa do beijo de um príncipe ou da intervenção de um caçador para conseguir sair do processo de maturação simbolizado pelo tempo de adormecimento ou de penúria. Não é possível ser indiferente a essa dicotomia, pois ela revela sim um estereótipo de como a mulher deve se portar em sociedade, quais as posições e locais adequados e, sobretudo, quais os locais proibidos para a mulher.
Enquanto o homem é retratado como alguém que parte para aventuras externas, como pessoa de ação, que interage com o mundo e com o espaço público, a mulher já não tem a mesma sorte. Não se realiza como indivíduo desbravando o mundo (a exceção em que consigo pensar aqui é Chapeuzinho Vermelho, e mesmo assim é preciso reconhecer que, a princípio, levar guloseimas para a vovó numa cestinha não é a aventura mais maravilhosa do planeta). E, sobretudo, só é capaz de sair de sua condição desfavorável através da figura masculina capaz de substituir, na interpretação psicanalítica, o amor edípico pelo pai.
O esquema psicanalítico é por vezes muito rígido, e sua incapacidade de se associar a interpretações histórico-sociais leva a alguns impasses e contradições. Assim, acaba se tornando uma maneira de interpretar a literatura sempre a partir dos mesmos tópicos. Bettelheim, contudo, lança mão de algumas observações históricas para reforçar sua interpretação psicanalítica de alguns contos. Como alegoria sobre a aquisição da maturidade sexual, convém ressaltar que o pé de Cinderela se demonstra ajustado ao sapato de cristal (e pés pequenos são, mais em algumas épocas e sociedades do que em outras, símbolos de feminilidade), em contraste com as meias-irmãs de Cinderela, que, apesar de se esforçarem para encolher o pé (em outras versões da história chegam a mutilá-lo), elas têm pés grandes e grosseiros demais para serem aceitas pelo príncipe. Desse modo, o pé pequeno demonstra como Cinderela é mais feminina e desejável que as outras. Bela Adormecida, por sua vez, espeta seu dedo numa roca, e convém lembrar que durante muito tempo a atividade de fiar era exclusivamente praticada por mulheres. Acrescento uma outra questão que ele não aborda em seu livro: como Cinderela e Branca de Neve passam pelo suposto processo de maturação realizando trabalhos domésticos, tornando-se moças prendadas, até que têm seu destino mudado através de um casamento com um príncipe.
O livro de Colette Dowling, Complexo de Cinderela, fez bastante sucesso na década de 80, ao demonstrar como o tratamento desigual que pais dispensavam para crianças de gênero feminino ou masculino acabavam por influenciar posteriormente em alguns comportamentos que teriam como adultos. A alusão à Cinderela no título é apenas simbólica. Seu objetivo não era mostrar como contos de fadas interferem na vida das crianças, mas antes mostrar como o tratamento que recebem quando crianças incute determinados comportamentos. Assim, mulheres bem-sucedidas profissionalmente no fundo eram incapazes de se ver como pessoas realizadas enquanto não tivessem sido achadas pelo príncipe encantado.
Essa divisão, de maneira geral, parece prevalecer ainda: enquanto meninos, tal como Sinbad, são estimulados a desbravar o mundo, as mulheres devem ser gentis e bem-comportadas (inclusive quando ocupam cargos de chefia, pois, afinal, atitudes enérgicas e incisivas são vistas como “masculinas” e “pouco atraentes”). São muitas vezes avaliadas não pelo sucesso profissional que foram capazes de obter sozinhas, mas pela sua capacidade de estar num relacionamento e de formar uma família de sucesso, ou, ainda, na sua capacidade de parecer bonita e desejável para um homem.
Está em cartaz atualmente a mais recente adaptação da Disney para Cinderela. Destaco as ótimas participações de Cate Blanchett e Helena Bonham Carter, que interpretam, respectivamente, a madrasta e a fada madrinha, ou seja, a partir da psicanálise, poderíamos dizer que elas encarnam a ambivalência da figura materna no filme. Nessa versão, particularmente salta aos olhos a contundência de várias interpretações de Bettelheim, como a disputa existente entre a madrasta e Cinderela pelo amor do pai (no filme inclusive há uma cena em que, de brincadeira, o pai corteja a filha), os ciúmes e os conflitos entre irmãs (o fato de as duas irmãs de Cinderela se vestirem sempre parecidas reforça o caráter de ambas como única entidade, e não como indivíduos idiossincráticos. Nesse sentido, reforça-se o caráter simbólico). Ao comentar uma das versões existentes do conto da Cinderela, Bettelheim revela seu moralismo e machismo latentes, de que estão sob o risco de caírem todas as visões acríticas sobre os contos de fadas:
“Sua fuga repetida (de Cinderela) mostra que, ao contrário das irmãs, ela não é agressiva em sua sexualidade, antes aguarda pacientemente ser escolhida” (BETTELHEIM, 2007, p.365).
A leitura de Bettelheim sempre será limitadora, pois defende que uma das prioridades das histórias contadas à criança é ajudá-la a passar pelos conflitos afetivos que possui em relação aos pais. De acordo com isso, ele faz muitas críticas a histórias infantis mais contemporâneas, que, por mais imaginativas que sejam, não recorrem a temas psicanalíticos como a chegada ao amor maduro que representa o encontro com o príncipe encantado. Enquanto as crianças ainda têm muita liberdade de interpretar os contos de fadas, o crítico, no entanto, parece de mãos atadas, pois parece não ser capaz de perceber significados para além da psicanálise, sobretudo quando eles se interpenetram com estigmas de gênero e circunstâncias antes históricas que naturais e atemporais.
Por mais que as pessoas continuamente elogiem as histórias da Disney, que andam cada vez mais incrementando aspectos progressistas em suas personagens femininas (afinal, Bela Adormecida, que só faz dormir e ser bonita, pode ser comparada com Mulan e naturalmente se encontrará em desvantagem), ainda é preciso que, finalmente, sejamos capazes de criar histórias que enquadrem personagens femininas que dispensam o final feliz com o príncipe. Como diz a música da Regina Spektor, I´m the hero of the story, I don´t need to be saved. Se as mulheres quiserem ser “agressivas” em sua sexualidade ou se não desejarem sequer ser escolhidas pelo príncipe, que mal há nisso?
Referência bibliográfica: BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz e Terra, 2007.